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Cheias no Baixo Mondego | Campos da Quinta de Fôja

Atualizado: 10 de jan.

Até ao início da década de 80 (século XX), os campos da Quinta de Fôja, inseridos na extensa zona inundável do Baixo Mondego, eram regularmente afetados por cheias de inverno, resultantes do regime natural das águas do rio Mondego. As chuvas intensas e prolongadas, associadas à reduzida capacidade de escoamento do leito e à inexistência de um sistema eficaz de controlo de caudais, levavam frequentemente ao transbordo do rio e à inundação dos campos agrícolas.

Para além de outras, uma das zonas mais críticas era a área designada por Ponte do Rio, na estrada que liga Santana ao concelho de Montemor-o-Velho. Em períodos de cheia, esta via ficava total ou parcialmente submersa, tornando-se intransitável durante dias ou mesmo semanas. Esta situação isolava populações, dificultava o acesso a serviços essenciais, comprometia o transporte de bens e pessoas e afetava profundamente a vida quotidiana das comunidades locais.

As cheias não se limitavam a episódios pontuais: eram recorrentes e previsíveis, integrando o ciclo anual de inverno. Os campos permaneciam alagados durante longos períodos, o que atrasava ou inviabilizava culturas, provocava perdas económicas significativas e tornava a atividade agrícola altamente dependente das condições climáticas.

Perante este cenário, o Estado português avançou, a partir dos anos 1970, com um conjunto estruturado de obras de regularização do rio Mondego, enquadradas no Plano de Aproveitamento Hidráulico do Baixo Mondego.

Estas intervenções tinham como objetivos principais reduzir a frequência e a gravidade das cheias, controlar os caudais do rio, proteger os campos agrícolas e as povoações ribeirinhas, bem como criar condições para uma agricultura moderna e estável. Para alcançar esses objetivos, foram realizadas diversas obras de grande relevância, entre as quais se destacam a construção das barragens da Aguieira e de Fronhas, que passaram a permitir a retenção e a gestão dos caudais de inverno, a regularização e o alargamento do leito do rio, com a retificação de troços e a estabilização das margens, a construção de diques de proteção, canais de drenagem e redes de valas, bem como a implementação de estações elevatórias e comportas, fundamentais para a drenagem dos campos baixos, como os da Quinta de Fôja.

Os efeitos das obras de regularização fizeram-se sentir de forma clara a partir dos anos 1980 e 1990. Na zona da Quinta de Fôja e da Ponte do Rio, as cheias deixaram de ser um fenómeno anual inevitável. A estrada entre Santana e Montemor-o-Velho passou a manter-se transitável mesmo em períodos de chuva intensa, garantindo a mobilidade das populações e a ligação entre freguesias e concelhos.

Na agricultura, os benefícios foram decisivos, traduzindo-se numa redução drástica do tempo de permanência da água nos campos, numa maior previsibilidade das campanhas agrícolas, na possibilidade de mecanização e intensificação das culturas e, consequentemente, no aumento da produtividade e da rentabilidade dos terrenos.

Para as povoações, as obras trouxeram maior segurança, estabilidade e qualidade de vida, reduzindo prejuízos materiais, riscos para pessoas e animais, e a sensação de isolamento que marcava os invernos antes da regularização do rio.

As cheias que, nos anos 70 e 80, submergiam os campos da Quinta de Fôja e interrompiam a estrada da Ponte do Rio são hoje um testemunho de um período anterior à intervenção estruturada no Baixo Mondego. As obras de regularização do rio representaram uma mudança profunda na relação entre o Mondego, a agricultura e as populações ribeirinhas, permitindo transformar uma área historicamente vulnerável num território produtivo, habitável e funcional, ainda que dependente de manutenção contínua e gestão cuidada do sistema hidráulico.


Foto: Cristina Monteiro (arquivo)
Foto: Cristina Monteiro (arquivo)

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