Dentro da Arca: Roupas, Memórias e Silêncios
- Jorge Monteiro
- 10 de jan.
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Em tempos idos, quase não havia casa que não tivesse uma arca metálica. Fazia parte do cenário doméstico, tão natural como a mesa da cozinha ou a cómoda do quarto. Ficava geralmente encostada a uma parede, discreta, mas sempre presente, guardando em silêncio aquilo que a família tinha de mais precioso.
Quando se levantava a tampa, pesada e fria ao toque, vinha ao encontro um cheiro particular: mistura de roupa lavada, alfazema seca, sabonete antigo. Lá dentro dormiam cobertores grossos para os invernos rigorosos, mantas de lã, lençóis guardados para as visitas, o enxoval preparado com antecedência e esperança. Cada peça tinha uma história, um motivo, um futuro pensado.
Essas arcas eram mais do que simples recipientes. Eram guardiãs do tempo. Protegiam recordações, prendas de momentos importantes, roupas feitas para durar muitos anos, às vezes para passar de geração em geração. Abrir a arca era quase um ritual, feito devagar, com respeito, como quem folheia um álbum antigo onde tudo tem significado.
Hoje, essas arcas desapareceram de muitas casas, substituídas por soluções modernas e impessoais. Mas na memória de quem as conheceu continuam vivas. Porque nelas não se guardavam apenas roupas ou cobertores: guardava-se a vida como era então - simples, cuidada e cheia de afectos.
[Texto: Jorge Monteiro - 01 / 2026]
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