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Em busca da identidade perdida: o vaso grego arcaico de Santa Olaia

  • 6 de mai.
  • 16 min de leitura

O presente artigo dá destaque a um vaso singular e de origem um pouco obscura procedente do estabelecimento fenício de Santa Olaia (Santana, Figueira da Foz, Portugal) e integrado no acervo do Museu Arqueológico do Carmo (Lisboa). Avança-se com uma nova proposta de vinculação cultural para esta peça, desta feita ao repertório grego oriental - interpretação esta que coloca o exemplar português retratado na posição de derradeiro membro da restrita lista deste tipo de recipientes no extremo Ocidente. A análise apresentada pretende antes de mais contribuir para o reforço do conhecimento e divulgação daquele que é tido como o último sítio orientalizante da fachada atlântica -Santa Olaia. Numa esfera mais ampla promete estimular o debate sobre o tema da difusão e circulação da cerâmica grega arcaica no território ocidental, particularmente na Península Ibérica.


Um percurso singular: biografia do achado da peça

Começando pelo fim, em 2019, por ocasião da exposição temporária - Santos Rocha, Arqueologia e Territórios da Figueira da Foz - patente no Museu Municipal Santos Rocha (Figueira da Foz), o vaso cerâmico alvo deste estudo, atribuído a Santa Olaia e pertencente ao Museu Arqueológico do Carmo [MAC] em Lisboa, rumou a norte para integrar, por cedência temporária, a referida mostra comemorativa dos 125 anos da fundação do Museu. Aí tivemos oportunidade de efetuar o seu registo gráfico e apreciar a sua peculiar fisionomia formal e figurativa, que, não obstante ser de domínio público (Gamito 2005), parece ter passado um pouco despercebida e nos suscitou uma nova apreciação. Surpreende, antes de mais, o notável estado de conservação da vasilha, praticamente intacta (excetuando ligeira fratura no bordo e ombro) - caso insólito, refira-se, no conjunto do espólio da estação. Mas não menos singulares se revelam os contornos da sua história recente. E singulares na dupla aceção do termo: no sentido em que se configura, incontestavelmente, como um achado inusitado, insólito, incomum, bem como num segundo sentido ao figurar em exposição no histórico museu como único objeto de Santa Olaia. Com efeito, o desconhecimento dos pormenores da sua trajetória moderna, enquanto objeto de valor arqueológico, reforça, por assim dizer, o pendor enigmático da peça. Segundo Gamito (2005) foi oferecida a Possidónio da Silva (1806-1896), presidente da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes (fundada em 1863), sendo por sua mão integrada na colecção do então recém-criado Museu Archeologico do Carmo (1864), afeto àquela instituição, onde se mantém. Note-se que, como observa Ana Cristina Martins, a análise do catálogo publicado em 1891, permitiu constatar que “a esmagadora maioria dos objetos expostos no MAC ao longo do século XIX pertencia ao espólio particular de Possidónio da Silva...”. Com efeito, na segunda edição do catálogo da exposição do pioneiro museu de arqueologia a peça figura, sob o número de inventário 2473, com a seguinte descrição: “Antiga almotolia d’argila, achada na estrada da Figueira, perto da ermida de Santa Eulalia, em 1872: oferecida pelo sr. J. C. Everard” (1892: 83). O autor da oferta, não será outro senão o engenheiro de Obras Públicas: 1.º tenente da Armada José Carlos de Lara Everard (1823-1874). Permanecem, contudo, por desvendar os contornos que envolvem a exumação do recipiente, nomeadamente o contexto e local exato do achado e em que circunstâncias terá chegado a J. C. Everard. A este respeito alguns factos agora redescobertos ligados à história recente do sítio perfilam-se, com grande dose de probabilidade, como circunstancialmente conectáveis com a descoberta do artefacto, embora seja impossível determinar com rigor o sítio preciso de achado. Ora, em 1869, na “Exposição Districtal de Industria Agricola e Fabril e de Archeologia”, promovida pela Associação dos Artistas de Coimbra, onde se exibiram publicamente, talvez pela primeira vez em Coimbra, materiais arqueológicos, “Santa Eulalia” esteve presente através de “louças, ossos de animais, armas de pedra e de bronze” levados por Adolpho Ferreira de Loureiro (1836-1911), recolhidos aquando da abertura de um corte para a estrada de Coimbra à Figueira. Ainda de acordo com a notícia, acompanhava os objetos uma planta do terreno onde estes foram encontrados elaborada por A. F. Loureiro. Dos materiais e da planta noticiados desconhece-se o rasto.

A fazer fé na informação relativa às datas destes achados (1869) e do vaso em análise (1872), parece que estaremos perante dois acontecimentos muito próximos no tempo e no espaço (a base do outeiro de Santa Olaia) despoletados pela realização de uma intervenção de vulto na estrada entre Coimbra e a Figueira da Foz. Esta obra corresponderá, tudo indica, a uma alteração do traçado da via que passará a contornar o promontório de Santa Eulália pela vertente setentrional. Desconhecemos a data exata, duração e direção técnica da referida obra pública. No entanto, alguns elementos correlativos a este processo ajudam a demarcar temporalmente o caso e a projetar cenários conjeturais. Note-se que num mapa de Portugal de 1866 (três anos antes da Exposição de Coimbra) ainda se mantêm o primitivo caminho registado na carta de 1858 que ladeava o morro pelo lado sul. E só em 1901 se documenta cartograficamente o novo traçado, coincidente com a planta esquemática apresentada em 1908 por Santos Rocha. Este, que virá a ser o grande patrono dos trabalhos arqueológicos em Santa Olaia (iniciados presumivelmente em 1892), teria apenas 16 anos aquando das descobertas citadas, não tendo testemunhado os referidos trabalhos. Deles tomará conhecimento indireto por intermédio de “pessoas que conheceram bem o local antes da construção da estrada e de outras que trabalharam nesta obra”, referindo a propósito dos seus efeitos no outeiro que a “estrada pública cortou-lhe toda a encosta setentrional; e para os aterros da mesma estrada foi-lhe também cortada uma porção do lado oriental”. A janela temporal de pós 1866 e ante 1892, consente, portanto, que as recolhas de 1869/1872 decorram, efetivamente, da referida empreitada pública à qual se somaram sucessivos episódios de destruição. Para mais, a isso convida o perfil biográfico dos protagonistas dos achados. De rasto biográfico mais discreto encontramos, em meados do séc. XIX, José C. de Lara Everard estabelecido em Coimbra. Aí integra como engenheiro o Ministério das Obras Públicas, acompanhando entre outras as obras da futura “Estrada da Beira”. Quanto a Adolpho F. Loureiro, entra como militar no Ministério das Obras Públicas em 1860. Em 1863 era responsável pelas bacias hidrográficas dos rios Mondego, Vouga e Lis, assumindo em 1872 a Direção das obras do Mondego e do Distrito de Coimbra. Quando da sua morte era presidente da Associação de Arqueólogos Portugueses (AAP), sociedade que tutela na viragem republicana, ocorrida em 1910. A linha temporal dos eventos citados dá-nos, então, os dois engenheiros militares, em finais da década de 60 do séc. XIX, ao serviço do Ministério das Obras Públicas na região de Coimbra, um dos quais (AFL) como dirigente. O acesso de Adolfo F. Loureiro aos despojos arqueológicos dar-se-á, manifestamente, no quadro da condução das obras no Mondego. Já a valorização daqueles (no contexto da Exposição de 1869) compagina-se com um espírito cultivado, frequentador de diversas sociedades científicas como a AAP, a Academia das Ciências de Lisboa e o Instituto de Coimbra. No caso de José C. de Lara Everard é admissível a sua participação na referida empreitada da estrada de Coimbra à Figueira, sensivelmente na mesma altura em que dá apoio à construção da estrada da Beira. Quanto à sua ligação à AAP é desconhecida, não constando da lista de sócios da mesma. Ou, em alternativa igualmente plausível, mas menos provável, podemos imaginá-lo como mero portador da peça, recolhida, selecionada e remetida por Adolfo F. Loureiro à casa que virá no futuro a presidir. Sublinhe-se que, então (1869/1872), não havia alternativa institucional ao Museu Archeologico do Carmo, pois nem o Museu do Instituto de Coimbra nem o Museu da Figueira tinham sido criados, o que só aconteceria, respetivamente, em 1873 e 1894. De momento, são, pois, estes os factos conhecidos ou admissíveis reportáveis à descoberta do recipiente e que ajudam a compreender as peculiares circunstâncias do seu resgate, percurso e segunda vida, agora numa dimensão museológica.


O vaso de Santa Olaia: características e afinidades

O vaso de corpo oblongo ou ovoide mede 24 cm de altura por 16,5 cm de diâmetro máximo do bojo. O bojo de formato elíptico assenta em base “tipo bolacha”, quase plana (com ligeiro desvão), com 8,7 cm de diâmetro e é estrangulado por colo curto e curvo rematado em bordo simples, extrovertido e lábio boleado (5,5 cm de diâmetro). A forma (ligeira- mente inclinada para a direita) é armada de asa de secção oval sobre o ombro. Montada a torno, possui pasta beije (Munsell 7/2 10YR light gray), compacta, resistente e depurada sendo possível identificar a inclusão de grãos de calcite de pequeno calibre. A superfície, revestida com fina aguada esbranquiçada (Munsell 7/1 10YR light gray), encontra-se significativamente erodida, conservando em alguma extensão o polimento original. Ostenta vestígios de pintura a castanho escuro (Munsell 2.5/1 5Y black). Nalgumas zonas (colo e ombro) a pintura assume um tom laranja (Munsell 4/3 10YR brown), que poderá resultar do desvanecimento de uma cor única, mais escura. A decoração é aplicada no bordo, colo, bojo e asa e é constituída por bandas horizontais, com exceção de pelo menos uma faixa vertical ao longo da asa e da linha ondulada sobre o ombro. O desgaste superficial patente e as concreções concentradas nalguns pontos (especialmente na zona da asa) dificultam o reconhecimento integral dos motivos pintados, sendo provável que outros elementos atualmente imperceptíveis constassem da composição original. O formato e gramática decorativa deste contentor de líquidos remetem para o repertório grego de Este, identificando-se morfologicamente com alguns tipos de jarros e lekythoi presentes naquele universo de referência. Neste caso concreto, o desenho da asa, fixada abaixo do colo, enquadra-o tipologicamente no formato de jarro anterior à generalização dos lekythoi áticos na baixela helénica a partir de meados do primeiro milénio a.C.. No entanto, não é de estranhar na literatura o uso equivalente dos termos jarro, lekythos e olpe para a mesma forma. No contexto da Península Ibérica, o conjunto de vasos gregos arcaicos a que se vem somar este exemplar é manifestamente circunscrito, muito embora bem documentado nalgumas zonas, particularmente na área costeira meridional, oriental e baleares. Dentro dos indivíduos morfologicamente mais próximos da peça portuguesa destaca-se, pelo seu protagonismo, o vaso anforoide de Coria del Río. Refira-se que parte substancial dos paralelos elencados para o vaso de Santa Olaia foram justamente colhidos no mais recente trabalho de vulto sobre esta peça a qual inspirou em grande medida o presente texto.


Enquadramento crono-cultural

Face ao exposto, ressalta em evidência a excecionalidade do jarro de Santa Olaia no quadro da baixela sidérica e orientalizante da fachada atlântica. Esta ideia havia já sido, de certa forma, formulada por Teresa Gamito que, embora o considerasse um achado normal em ambientes comerciais fenícios, não deixou de alertar para o facto do mesmo não se encaixar no quadro das cerâmicas tipicamente fenícias. Efetivamente, a conjunção dos respetivos atributos parece remeter para o repertório grego oriental, radicado no Dodecaneso no período arcaico, onde se verifica, precisamente a partir de Rodes, a disseminação do Estilo Geométrico Tardio (LG) da Grécia Oriental. Contudo, tal como sucede aos seus pares, a sua classificação enferma do relativo sucesso e disseminação destes modelos que entroncam numa gramática produtiva revivalista e reiteradamente presente em diferentes épocas e séries ceramológicas. A linearidade e a simplicidade formal e ornamental prestam-se naturalmente bem ao decalque e imitação resultando numa severa dispersão diatópica e temporal de peças que partilham o mesmo “ar familiar”. Se as suas raízes estão patentes na cerâmica vascular sírio-palestiniana do Bronze Médio e Final (2250-1200 a.C.), alguns dos seus traços estão igualmente presentes na baixela micénica (1580-1100 a.C.), submicénica (1100-1050 a.C.), do geométrico cipriota (1050-750 a.C.) e jónica orientalizante e arcaica (séc. VII-VI a.C.), como assinala M. Pellicer. Mas poderemos ainda juntar a este universo as produções gregas ocidentais — etruscas, da Gália mediterrânica e hispânicas, nomeadamente de Huelva.

Se abordarmos o problema da identificação do objeto sob a perspectiva cronológica, a matriz geral da coleção artefactual da estação arqueológica de Santa Olaia convida-nos a inscrever, com maior grau de probabilidade, a peça no período orientalizante, sendo, de momento, problemático ancorá-la a uma cronologia mais antiga. No extremo oposto desta linha temporal parece estar afastada a possibilidade de uma datação que ultrapasse o final do séc. VI a.C., devido à própria evolução morfotipológica destes recipientes sob o ascendente do repertório ático. O reconhecimento do centro ou da esfera de produção da peça não representa um menor desafio. A realização de análises físico-químicas poderá, no futuro, lançar alguma luz a este respeito, mas, entretanto, resta-nos o expediente ao clássico procedimento de análise por comparação dos aspetos tipológicos. No quadro deste exercício, o vaso afasta-se ou aproxima-se dos seus congéneres em virtude da quantidade de atributos coincidentes. Circunscrevendo a exame as peças que revelam maior afinidade, dentro da mesma configuração geral, importa discernir os traços compartilhados dos desviantes. Assim, o corpo globular, pé anelar, asa geminada e mais subida e ausência do motivo da linha ondulada distanciam o vaso de Huelva do português. Já o exemplar de Ulastret, embora menos bojudo, distingue-se pelo bordo moldurado, bojo ovoide, asa geminada e pé anelar. Quanto ao lechytos de Lattes, este evidencia menor dimensão e afasta-se igualmente ao nível do bordo (mais evoluído), do corpo globular, da asa mais subida (a arrancar da base do colo), do pé anelar e da composição decorativa. Por oposição, o artefacto de Ruweisé é consideravelmente maior, mais bojudo, com asa geminada e sem linha ondulada. Restam-nos o exemplar de Pitigliano, parecido, mas mais pequeno e onde não se consegue confirmar a presença de linha ondulada e o exemplar de Vroulia que, apesar do estilo antiquado da representação disponível, parece decalcar todos os atributos visíveis do nosso recipiente. Efetivamente, neste último podemos constatar o mesmo formato esguio, o colo curto e curvo, o bordo simples, a asa descaída e em rolo e a base aparentemente simples. Concomitantemente a aplicação da pintura praticamente reproduz a mesma gramática e composição, com a presença de bandas simples no colo, ombro e bojo, linha dupla no corpo abaixo da asa, linha ondulada no ombro junto à asa e linha vertical sobre a mesma. Posto isto, na convicção de se tratar de um produto de importação, os elementos evocados apontam no sentido da identificação de uma provável produção grega de Este, convencionalmente designada de Jónia, que pela feição arcaica de alguns detalhes formais (corpo esguio, bordo simples, asa simples descaída e base plana) fixamos genericamente entre a segunda metade do séc. VII e a primeira metade do VI a.C. É curioso notar que a produção destas peças parece entroncar na tendência que se observa, na região, desde o séc. VIII a.C., de simultaneamente e em paralelo com o fabrico de exemplares de estilo Geométrico Tardio (LG) se dar a produção de vasilhas de inspiração levantina (Cipriota, do Norte da Síria e Fenícia), tanto na componente formal como no estilo decorativo linear.


O achado no contexto da fachada atlântica e considerações finais

Admitindo a integração do vaso num ambiente produtivo grego arcaico, cabe naturalmente sublinhar a raridade da presença deste tipo de artigos nas regiões ocidentais, sendo particularmente escassos na fachada atlântica portuguesa. No presente momento reduz-se a seis o número de artefactos correspondentes a produções gregas de fase arcaica identificados neste território. De Castro Marim, na costa algarvia, provém um fragmento de olpe de figuras negras do séc. VI a.C., integrável no Coríntio Médio. Da necrópole do Olival do Senhor dos Mártires, no estuário do Sado, procedem duas peças notáveis. Uma taça ática de faixas de tipo C com decoração foral (foral band-cup) da primeira metade do séc. V a.C. e uma lucerna de provável produção coríntia datada do primeiro quartel do séc. V a.C.. Em Almaraz, na Foz do Tejo, recuperou-se um fragmento de parede de olpe ou oinochoé e um fragmento de fundo de aryballos, ambos do Coríntio Médio, datados da primeira metade do século VI a.C., em torno a 575 a.C.. Ainda na Foz do Tejo, mas na margem esquerda, em Lisboa (Rua dos Correeiros), foram recuperados dois fragmentos de bordo e parede de uma taça ática do grupo das vicup do I quartel do séc. V a.C.. O laconismo desta enumeração traduz a raridade da ocorrência deste material em Portugal, onde só muito recentemente, já na centúria corrente, veio a ser identificado. Para além disso, encontravam-se apenas representadas produções coríntias (incluindo do Coríntio Médio) e áticas (já do séc. V a.C.). A adstrição do jarro mondeguino às produções helénicas orientais, ou de inspiração grega oriental amplia assim o número de indivíduos portugueses conhecidos (para sete), o elenco do repertório e atesta um novo círculo produtivo dentro da cerâmica grega deste período.

Face ao seu enquadramento crono-cultural há que associar esta ocorrência, do mesmo modo que as mencionadas cerâmicas do Coríntio Médio, à atividade mercantil dominada pelos agentes fenícios no âmbito dos estabelecimentos e entrepostos ocidentais de época orientalizante, em linha com o que fora sugerido por Teresa Gamito (2005). Ora, o tópico das rotas comerciais estabelecidas pelos fenícios na costa atlântica tem sido sujeito a várias ópticas, muito embora ainda não se imponha um modelo explicativo que contemple satisfatoriamente todas as motivações e contornos subjacentes a este fenómeno. Possivelmente uma realidade como a expansão fenícia no ocidente, que se processa ao longo de uma vasta extensão temporal e espacial, que se pressupõe múltipla, dinâmica e complexa, dificilmente poderá ser acomodada numa visão unívoca. Contudo, as motivações tradicionalmente invocadas deverão ter assumido de forma conjugada e filtrada pelas circunstâncias concretas de cada caso, um papel determinante na criação e fomentação destes circuitos ultramarinos. Desde logo a tónica incide na demanda de metais, imposta pela sujeição tributaria ao império Assírio ou relacionada com a actividade mercantil gaditana, a que se juntam a busca de terras cultiváveis, a exploração de madeira, de recursos marinhos ou actividades artesanais. No caso de Santa Olaia a perspectiva normalmente adoptada privilegia as condições ligadas ao acesso aos recursos metalúrgicos (estanho) do interior do território português. Outros factores certamente terão contribuído para alimentar os circuitos de trocas e transações com este estabelecimento, contudo a sua discussão extravasa o âmbito deste artigo e pouco contribuiria, à partida, para iluminar a questão em concreto do surgimento da peça tratada. Resulta, portanto, consensual que neste período as escassas importações gregas que chegam aos territórios mais ocidentais se integram no fluxo do comércio fenício que envolve, outrossim, a participação de múltiplos agentes e parceiros económicos dentre os quais naturalmente elementos de origem grega. Para mais, a respeito da provável origem grega oriental, apesar do eco literário das expedições focenses e sâmias ao ocidente, contrariamente ao que sucedeu com coríntios e eubeus, os jónios não se revelam particularmente empreendedores em matéria de navegação e comércio de longa distância — aspecto que reforça definitivamente a associação da peça à navegação de iniciativa fenícia. No entanto e como já foi notado os vasos gregos não constam dos pertences que os fenícios habitualmente levam consigo nas suas viagens. Neste cenário a incorporação de tripulação de diferentes origens no quadro das expedições fenícias torna ainda assim possível a sua associação a um elemento oriundo destas paragens. Aliás, um achado desta natureza, singular no quadro da demais cerâmica, deverá mais facilmente decorrer da aleatória mobilidade de objectos raros, associada a um indivíduo, mais do que a uma corrente comercial directamente dimanada da Grécia de Este. Refira-se ainda a propósito que a cultura material de Santa Olaia apresenta uma matriz eminentemente fenícia e que a cerâmica da estação engloba um grupo potencialmente contemporâneo do vaso grego. Neste inclui-se cerâmica de engobe vermelho (pratos, taças e queima-perfumes), cerâmica cinzenta fina, ânforas, urnas tipo Cruz del Negro, pithoi e diversos vasos pintados — produções que se inscrevem nos séc. VII e VI a.C.. Para melhor enquadrar e colocar em perspectiva o achado mondeguino, será conveniente confrontá-lo no quadro das importações gregas conhecidas do Sul peninsular pelas respectivas afinidades culturais. Neste território meridional, os artigos gregos a partir de meados do séc. VII a.C. integram-se num sistema comercial diferente das importações gregas do séc. VIII a.C., conforme diversos investigadores têm defendido e já sem qualquer conexão com os achados remotos referenciados na zona de Málaga e Huelva. Anuncia-se então, a partir de meados do séc. VII a.C., no quadro dos produtos de procedência helénica a irrupção de cerâmica da Grécia de Este (ânforas e posteriormente baixela fina), sobretudo da Jónia do Norte e de Samos. Será no seguimento deste período, entre os finais do séc. VII e meados do VI a.C., que se deverá inscrever o jarro de Santa Olaia, no que se considera uma nova etapa nas importações gregas, marcada pelo claro predomínio das cerâmicas gregas de Este, face a outros focos de produção como o coríntio, ático ou lacónio. Assinala-se igualmente nesta fase de crescimento do volume de cerâmicas gregas a coexistência de um pacote de importações que engloba produtos de distinto valor. Neste sentido é registado inclusive um acréscimo em massa de produções de menor qualidade, de índole quase comum, face aos produtos de qualidade superior, profusamente decorados e de carácter verdadeiramente de luxo no que se entende como um fenómeno de estandardização produtiva. Ora, contrariamente aos fragmentos coríntios identificados em Castro Marim e Almaraz, o jarro de Santa Olaia insere-se naquele primeiro segmento produtivo. Ou seja, trata-se de uma peça que deverá ter sido valorizada pelo seu conteúdo. Desafortunadamente não é certa a identificação do líquido que encerrava, nem se esta forma se associaria de modo estrito a um conteúdo específico. Assim, poderemos estar perante cenários operacionais tão diferentes como o serviço de vinho no âmbito do syposium (do género de olpe), a sua conservação e transporte, ou o uso como reservatório de azeite para ungir no contexto de uma utilização religiosa ou funerária (do género de lekytos). Lamentavelmente o desconhecimento da sua procedência exata não permite fornecer pistas adicionais quanto ao respetivo ambiente funcional de referência. Tradicionalmente conotadas com produtos de luxo, veiculados através dos sistemas de intercâmbio de oferendas às elites locais (no âmbito da xenía e da philía) ou até para satisfação da demanda de oligarquias mercantis, no território tartéssico, estes materiais registam-se em contextos de habitat (incluindo áreas de cariz comercial), em ambientes sepulcrais sumptuosos e em locais de culto. No caso presente a parca informação disponível permite equacionar que a peça foi exumada no sopé norte do outeiro de Santa Olaia ou inclusive até já na base do monte vizinho do Ferrestelo, inscrevendo-se, portanto, no limite ou na área de influência direta do povoado. Note-se que um século mais tarde, em 1969, será assinalado por Vítor Guerra, diretor do Museu Municipal Santos Rocha (de 1938 a 1977) o achado de “grande quantidade de fragmentos cerâmicos” proto-hitóricos na vertente, i.e., do lado norte, do Ferrestelo aquando das obras de desvio da estrada, o que credibiliza a ideia de que a área de ocupação do sítio de Santa Olaia parece ter sido ainda mais vasta. Ou, dito de outro modo, a inteligibilidade plena dessa ocupação implica um conhecimento mais consistente sobre o que se passou no Monte do Ferrestelo. E está visto que essas ocupações atingiram o sopé das duas elevações. Aquela imprecisão topográfica deixa, contudo, margem para se ponderar qualquer uma das hipóteses em aberto, i.e., a sua aparição dentro do perímetro muralhado, nas proximidades da área artesanal escavada na vertente norte ribeirinha; ou o seu vínculo a um eventual espaço de cariz funerário, sagrado ou religioso desconhecido e situado nas imediações do povoado. Alguns dados evidenciados no âmbito do corrente estudo do sítio, permitem colocar a hipótese de um espaço sagrado no alto do povoado — espaço este não necessariamente exclusivo nem, tão pouco, impeditivo da ocorrência de outros locais de culto no perímetro ou nas imediações do povoado. Seja como for, a preservação quase intacta do vaso aponta para um tipo de contexto especial, para uma deposição intencional numa zona também particular, liminar, entre a terra firme do promontório, o areal norte e as águas do paleoestuário do Mondego. Aliás, uma eventual incorporação da peça neste local associada à prática de xenía e da philía, da troca de ofertas, forjadoras de laços entre diferentes elementos de um dado contexto social poderia facilmente ter como desfecho a sua posterior amortização num contexto de âmbito votivo. Âmbito este que melhor explicaria a insólita integridade do recipiente e a sua singularidade entre o riquíssimo acervo cerâmico de Santa Olaia. Este manto de incertezas que dificilmente se dissipará, não fere, contudo, o interesse arqueológico da peça. Esta, no seu ineditismo desafia-nos e convoca o desfiar de leituras e planos de interpretação no quadro da ocupação orientalizante da I Idade do Ferro do Centro litoral português, alistando-se a outros materiais que evocam a conexão umbilical de Santa Olaia, nestas paragens limítrofes, ao eixo dimanado do Mediterrâneo oriental no decurso dos sécs. VII e VI a.C..


[ Excerto do trabalho de Sara Almeida, Raquel Vilaça e Ana Margarida Ferreira, publicado na Revista d'Arqueologia de Ponent, n.º 31 de 31.03.2021 ]






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