Instrumentos e a Artes de Pesca no Sítio Proto-Histórico de Santa Olaia
- 17 de mar.
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Aqui se reproduz um estudo de Sara Almeida, Raquel Vilaça e Isabel Pereira, publicado na revista Arqueologia em Portugal | 2023 - Estado da Questão, editado pela Associação dos Arqueólogos Portugueses
Resumo
Pelo perfil cultural e histórico de intervenções, Santa Olaia é uma das estações proto-históricas de referência no litoral atlântico. A natureza estuarina proporciona relevantes recursos alimentares, com reflexo no registo arqueológico, sendo, contudo, esta uma matéria ainda não explorada. Assim, este trabalho centra-se nos vestígios ligados à pesca, nomeadamente no corpus instrumental pesqueiro recuperado nas diversas escavações. Do acervo, destacam-se peças que evocam tradições pesqueiras ancestrais, juntamente com outras ligadas à presença fenícia – marcas da genética cultural do sítio e do seu impacto regional. A dispersão dos artefactos é igualmente sugestiva dos contextos deposicionais, sendo de destacar os indícios da reparação de redes junto à porta da muralha e a possível amortização ritual de pesos no topo da colina.
1 - Introdução
Na Antiguidade, tal como hoje, o peixe seria um recurso vital para as comunidades costeiras e fluviais. A par da exploração de recursos marinhos em regime de autoconsumo, a partir da Idade do Ferro dá-se início a sistemas de pesca em grande escala, com vista ao processamento industrial e à exploração comercial dos subprodutos marítimos no seio dos territórios fenícios ocidentais (Saez, 2011). Com ela se articulam ainda outras actividades paralelas, por vezes difíceis de rastrear no registo arqueológico, tais como a produção de instrumentos de pesca, cordame, velame, embarcações, a extração de sal e até, nalguns casos, a indústria conserveira e oleira. Inscrevendo-se nesta temática, o presente artigo versa sobre os vestígios de pesca recuperados na estação proto-histórica de Santa Olaia (Figueira da Foz), desde finais de oitocentos (Rocha, 1971) à actualidade (Pereira, 1997, 2009). Tratando-se de um sítio há muito conotado com a presença fenícia na península Ibérica, esta matéria encontrava-se ainda inexplorada na bibliografia. Com efeito, este é um tema recente no quadro da investigação sidérica (face a outros de maior tradição como a metalurgia, a arquitetura, o povoamento ou a cerâmica) embora se constate uma paulatina consolidação mercê da valorização económica das estratégias de exploração ambiental (Bernal, 2020).
Santa Olaia, na margem direita do Mondego, hoje a escassos 15 Km da foz, replica o típico modelo de instalação fenícia em ilha fluvial na boca do sistema deltaico. Este contexto estuarino proporcionava simultaneamente o acesso a recursos fluviais e marítimos, providenciando não só um manancial biológico, como condições para a exploração de um bem essencial – o sal (Arruda, 2006). Porém, se a primeira actividade está atestada na recoleção de espécies aquáticas, nomeadamente de moluscos (Almeida, Calapez e Vilaça, 2017), já a salinicultura é difícil de reconhecer, muito embora o sal fosse fundamental na alimentação, conservação e noutras actividades produtivas como a metalurgia e curtumes de pele (Fernández Jurado, 2006). O estudo das práticas de pesca assume, assim, especial relevância no que toca à exploração marítima e fluvial. Contudo, a inexistência de amostras de restos de capturas e de estudos de arqueoicteofauna, cinge de momento, esta abordagem à análise do espólio artefactual haliêutico. Deste conjunto fazem parte instrumentos relativos a diferentes técnicas de pesca, nomeadamente anzóis, pesos e artefactos empregues em actividades complementares, como as agulhas. Este estudo procura, pois, apresentar um corpus dos instrumenta piscatoria de Santa Olaia e apontar leituras possíveis para os seus contextos e significados.
2 - Artefactos de pesca ou correlacionados com a actividade pesqueira
As artes de pesca tradicional caracterizam-se pela simplicidade e eficácia tecnológica, cristalizada a partir da Idade do Ferro, época em que alguns dos tipos mais característicos do arsenal pesqueiro, como o anzol (de tradição pelo menos calcolítica e ainda sem barbela) se consolidam no território ocidental (Saez, 2020). Facilmente reconhecível, o rudimentar dispositivo de pesca do I milénio a.C., pouco difere dos actuais apetrechos artesanais. Este facto explicará, em parte, a fraca tradição deste tópico nos estudos arqueológicos, embora o reconhecimento da importância económica das actividades pesqueiras no período pré-romano na área do Estreito tenham fomentado o interesse pelo tema. Neste contexto assiste-se a um crescente esforço de compilação e catalogação (Bernal 2008, 2010; Vargas, 2011, 2020b) que tende a incorporar progressivamente territórios e cronologias mais alargadas. Em Santa Olaia, da panóplia de elementos conexos à pesca, apenas dispomos de materiais inorgânicos. O número de peças inventariado ascende a 183 e inclui instrumentos de pesca (anzóis e pesos) e, é admissível, material complementar (agulhas), acerca dos quais se dispõe de desigual informação sobre o contexto estratigráfco de proveniência. As recolhas antigas carecem de dados, sabendo-se, quanto muito, se procedem do planalto superior (e se são recolhidas em pavimentos) ou dos chamados “rebotalhos” – depósitos acumulados junto à escadaria da capela. E embora melhor documentadas, as recolhas recentes provêm em parte de níveis pós-sidéricos, perturbados ou superficiais. Neste sentido, e atendendo à diacronia de ocupação do sítio (Rocha 1905-08; Silva, Almeida e Pereira 2021), não é de excluir que alguns desses materiais, também eles de limitada ou nula evolução morfológica, possam ser já de época histórica (romana ou medieval).
2.1 - Anzóis
O aparecimento de anzóis antecede largamente o I milénio a.C., sendo muito interessante no território português o conjunto proveniente de distintos povoados calcolíticos da Estremadura, como bem ilustra o caso de Leceia (Oeiras), onde se recuperaram alguns anzóis de cobre quase puro ou com percentagens variáveis de arsénio (Cardoso et al., 2020). Ainda assim, em época proto-histórica e no espaço peninsular a generalização da sua produção em liga de bronze parece estar ligada aos estabelecimentos coloniais fenícios (Bernal, 2010: 87). De design elementar e eficaz, os anzóis proto-históricos tanto podem ser utilizados, de forma isolada ou em pequeno número, numa cana ou vara, presos no extremo de fio aprumado por peso ou formar parte de um aparelho à linha (largado com flutuadores e no qual se dispõem a intervalos presos por fios paralelos). Se o aparelho requer uma embarcação, a cana de pesca constitui a forma mais simples, prática e que exige menos recursos para capturar peixe. Acessível a um maior número de pessoas a pesca de cana, deteria um papel de relevo na subsistência alimentar. Daí que os anzóis sejam os instrumentos haliêuticos mais frequentes nos sítios costeiros, apesar de despertarem pouca atenção face a outros artefactos metálicos – tendência esbatida a partir das propostas de classificação de anzóis da área do Estreito (Bernal, 2010; Vargas, 2011). Entre a colecção exumada em Santa Olaia contam-se dois anzóis de bronze, de distinto tamanho e tipologia e de diferente contexto. O exemplar mais pequeno enquadra-se no tipo de anzol simples (AI) de pequena dimensão (2,5 a 4 cm de comprimento) de secção circular definido por Bernal (2010: 89 e 92), encontrando-se incompleto nas extremidades. Foi recolhido por Santos Rocha no topo da colina, “nos pavimentos das casas” (Rocha, 1905: 126). O segundo corresponde à tipologia de anzol simples de Bernal (2010). Distingue-se, contudo do anterior pela presença de arpão, secção quadrangular e tamanho, enquadrando-se na categoria de anzóis de média dimensão (4-8 cm). Procede da zona baixa do povoado, de um nível sidérico (de meados do I milénio) anterior à instalação dos fornos metalúrgicos identificados nesta zona. Apesar do bom estado de conservação a peça não apresenta olhal e a haste mantem-se rectilínea, sem deformação pelo uso. Conjugando este aspecto ao facto de se reportar a uma área associada à produção metalúrgica, considera-se a possibilidade de estar inacabada, faltando concluir o olhal por ranhura ou martelamento. Estas peças correspondem ao modelo tipológico mais comum no registo arqueológico, com inúmeros paralelos na fachada atlântica ocidental, destacando-se pela afinidade crono-cultural os exemplares de Abul A (Mayet e Silva, 2000), Almaraz (Valério et al. 2003) e da necrópole do Olival do Senhor dos Mártires (Gomes, 2021: Est. CXXXI).
2.2 - Pesos
Os pesos podem ser associados à pesca à linha e cana, mas sobretudo à utilização de redes – termo que engloba uma considerável diversidade tipológica de aparelhos. No entanto a invisibilidade do registo arqueológico limita o seu estudo aos respectivos lastros. Pelos desafios subjacentes esta tem sido uma das categorias artefactuais mais negligenciadas no quadro dos estudos de materiais. A elevada falta de consenso quanto à sua interpretação funcional leva a que só paulatinamente, face à identificação de contextos mais esclarecedores, nomeadamente em ambiente subaquático, se tenha vindo a fixar uma proposta de seriação tipológica. Ainda assim há que ter presente o possível carácter polifuncional de algumas destas peças que poderiam efectivamente ser utilizadas como pesos em actividades de diferente natureza (Bernal, 2008). Relativamente à colecção estudada os pesos encontram-se ordenados atendendo à matéria-prima (pedra, cerâmica ou chumbo) e processo de fabrico (ex professo ou reaproveitados).
2.2.1 - Pesos de chumbo
Da estação procedem quatro pesos de chumbo (ou chumbadas) de tipologia laminar enrolada. É um tipo atestado em contextos peninsulares do séc. VI a IV a.C. e que se vulgariza a partir de então. Dois correspondem a placas retangulares dobradas, com 29,8 e 24 gr respectivamente. Os outros dois são mais pequenos, de formato tubular, com 19 e 9 gr. Essa distinção formal pode corresponder a diferentes aparelhos de pesca. As peças maiores poderiam fixar-se a cabos de rede de pequena dimensão e as mais pequenas (enroladas, com núcleo central estreito) a um fio fino, logo à pesca à linha (de cana ou de aparelho) (Bernal, 2008: 202). No que toca ao contexto de recolha, uma peça provém da base da encosta norte, duas do topo da colina e a quarta não dispõe de informação. No topo do outeiro uma foi recuperada por Santos Rocha (Rocha, 1905-8: 331) e a outra recolhida já nos anos 80 numa bolsa de plantio de oliveira (que perturbou os níveis da Idade do Ferro). Já a peça exumada na zona baixa da estação, encontrava-se junto à parede de um forno cerâmico. Os registos mais antigos destas lâminas de chumbo enroladas procedem de Cádis (Pinar Hondo), de contextos datados de meados do séc. IV a finais do III séc. a.C., ocorrendo igualmente em Cancho Roano, relacionadas, desta feita, com a pesca fluvial (Bernal, 2008:200).
2.2.2 - Pesos cilíndricos (de cerâmica)
Nos antigos territórios fenícios constata-se, a partir de época púnica, a generalização de pesos em cerâmica em diferentes tamanhos e modelos. No lote estudado testemunha-se um formato pequeno e cilíndrico, com perfuração longitudinal. Este tipo de pesos sidéricos sofre uma descontinuidade a partir de época tardo-púnica, não aparecendo em contextos posteriores (romanos), embora o estado embrionário desta linha de estudo e o aparecimento noutros contextos recomende cautela (Bernal, 2008: 191). Repare-se que, na estação, estes pesos eram já conhecidos, embora classificados como contas de colar (Rocha, 1905-8). Documentam-se 30 pesos desta tipologia, recolhidos nas diferentes escavações. Destes, 43% reportam-se ao planalto superior, 40% à base da encosta norte, desconhecendo-se o local de recolha dos restantes. Estes artefactos evidenciam alguma diversidade formal, podendo assumir um contorno abaulado, com estreitamento nos extremos ou um perfil mais rectangular. Também o peso e dimensão oscilam, bem como as características de fabrico. Alguns possuem pasta densa e depurada; outros grosseira com abundante têmpera de variada natureza (calcite, nódulos ferruginosos, areia quartzítica, mica); alguns possuem superfície polida e outros meramente alisada ou mesmo visivelmente erodida. O diâmetro externo médio oscila entre os 2 e 2,5 cm, o comprimento ronda os 5 cm e o diâmetro do orifício (que dará uma ideia da grossura do cabo) os 0,7 cm. Já o peso pode variar entre os 12 e 37 gr, verificando-se que seis têm o peso igual ou inferior a 19 gr, outros seis apresentam pesos iguais ou superiores a 30 e que os dezoito restantes se enquadram entre 20 e 29 gr. Quanto aos parâmetros morfométricos, estes exemplares são ligeiramente mais pequenos comparativamente à maioria dos congéneres gaditanos, principalmente no que se refere ao diâmetro do orifício e diâmetro externo. Tal como nos restantes casos peninsulares, desconhece-se o modelo ou tamanho das redes a que pertenciam estes pesos. A maioria dos paralelos arrola-se na área de Cádis, em meados do I milénio, prolongando-se pelo período bárquida. Nesta zona a produção encontra-se balizada pelos níveis de amortização da olaria do sector III de Camposoto (s. V a.C.) correspondendo ao tipo GIIa1 (Ramon et al., 2007) e os fornos e escombreiras do séc. III/II a.C. de Torre Alta (Saez, 2011b). Produzidos em série nestes ateliês, destacam-se, tal como os de Santa Olaia, pelo acabamento grosseiro, execução tosca e alguma diferenciação formal. No ocidente peninsular cabe destacar os exemplares da camada 2 de Abul B, do séc. V a.C. (Mayet e Silva, 2000) e da Quinta do Almaraz (Olaio, 2020). Chama-se sobretudo a atenção para a concentração de achados deste tipo mais a norte, na área do Mondego. Classificadas como contas de colar, eram já conhecidas as peças de Conimbriga, procedentes do bico da muralha (Correia, 1993: 237) e as do Crasto de Tavarede (Rocha, 1905-8). Do oppidum de Aeminium (Coimbra) está publicada a fotografia de uma peça que parece ser possível enquadrar nesta categoria de artefacto (Rodrigues, 1961: 383). Ainda no estuário do Mondego é significativa a ausência destes pesos no Crasto de Soure, mais tardio, já de finais do I milénio (Almeida, Silva e Monteiro, 2021). Por fim, não menos interessante é o surgimento de peças similares no vizinho estuário do Vouga, em contextos urbanos da cidade de Aveiro (Temudo, 2020). Embora se lhes atribua uma cronologia medieval, tratando-se de peças descontextualizadas, não será de descartar uma datação mais antiga, possivelmente relacionada com a Agra do Crasto (Baptista, 2022).
2.2.3 - Pesos globulares (de cerâmica)
Ao contrário de outras peças sub-esféricas de grande dimensão como as de Tavira (Maia, 2006), aqui documentam-se peças de pequeno tamanho. Contabilizam-se cinco exemplares, três dos quais recolhidos nas escavações antigas. Dois exumados na vertente da encosta norte, reportam-se ao nível de destruição de uma área de armazenamento, datado entre finais do séc. V e inícios do IV a. C.. Tal como os pesos cilíndricos, estes revelam a mesma execução tosca, com pastas grosseiras, por vezes mal cozidas, superfícies irregulares e assimetria formal. Algumas aproximam-se de um esferoide enquanto outras mostram achatamento de uma das faces. O tamanho e sobretudo o peso é compatível com o dos congéneres cilíndricos. Não sendo comuns na literatura arqueológica, identificam-se peças similares em Cádis em contextos de época púnica (séc. V-III a.C.), nomeadamente no complexo de preparados piscícolas de Las Redes (Vargas 2020c, vol. 2 nº 471 a 484) e mais próximo, na Quinta do Almaraz (Olaio 2000.
2.2.4. Pesos discoidais (em cerâmica)
Peças de formato circular com amplo orifício central, com precedentes no mundo ibérico, aparecem na zona do estreito e na fachada atlântica, sobretudo a partir do séc. II a.C. (Playa 2005: 53; Bernal 2008: 197). No caso dos dois fragmentos recolhidos na zona baixa de Santa Olaia, em camadas com perturbação superficial, não é inteiramente segura uma cronologia pré-romana, embora a mesma não deva ser descartada. A peça maior (diâmetro de 9 cm) apresenta erosão superficial – sinal de possível uso. A segunda com diâmetro de 8 cm possui pasta densa e superfície polida. Acham-se paralelos pré-romanos na zona ibérica em contextos do séc. IV e III a. C e no castillo de Doña Blanca (Playa, 2005: 55; Vargas 2020c, vol. 2 nº 439 e 440, 470).
2.2.5 - Pesos discóidais recortados (em cerâmica)
Os pesos de cerâmica fabricados sobre fragmentos cortados e com um furo central têm uma longa tradição, encontrando-se atestados da Idade do Bronze à Antiguidade tardia (Playa, 2005: 53; Bernal, 2008: 197). Contudo, a falta de estandardização e o cariz de objecto reutilizado levanta reservas quanto à interpretação destas peças que podem facilmente deter um carácter polifuncional, como fusaiolas ou pesos. Se nalguns casos o contexto pode ajudar a esclarecer a questão funcional, no presente caso não dispomos de informação relevante, restando apenas recorrer aos aspectos morfométricos. Assim, entre o espólio observado e exceptuando-se algumas peças que pela reduzida dimensão poderão mais plausivelmente estar relacionadas com a fiação, apenas se identifica um peso discóidal em cerâmica calcítica com 4,6 cm e 48 gr.. Entre os paralelos para este exemplar refira-se o peso recolhido em Abul A (ho rizonte IC/IIA) (Mayet e Silva, 2000: fig. 100, 190) e o de Moinho da Atalaia Oeste (Sousa, 2014: 234).
2.2.6 - Pesos de cerâmica com entalhes
Assim como os pesos em pedra com entalhe, este tipo de objectos enquadra-se num sistema tradicional com ampla perduração que extravasa a Idade do Ferro (Playa, 2005: 53; Bernal, 2008, 188). Tal como a categoria anterior este é um tipo de objectos reutilizado e propenso a múltiplas utilizações, merecendo um tratamento específico que contemple igualmente os dados relacionados com outras actividades no povoado. No estabelecimento de Santa Olaia é o tipo de peso mais frequente o que, aliás, havia já impressionado Mesquita de Figueiredo, como revelam os esboços deixados num dos seus ‘Cadernos de apontamentos’ (de 2 de Setembro de 1898), inédito, comparando-os aí com os da Sé de Lisboa. Deste conjunto, 14% correspondem a peças exumadas nas escavações recentes na plataforma superior, 32 % a recolhas antigas (possivelmente na mesma área) e 54% procedem da zona baixa do povoado). O mapa de dispersão de achados ilustra sobretudo uma concentração junto à entrada da muralha. Como seria espectável neste segmento pouco padronizado, documenta-se uma significativa variedade ao nível do formato, dimensão, peso e tipo de suporte cerâmico. O material de suporte mais frequente (65%) é a cerâmica comum, em produções variadas (calcítica, micácea, ânforas). Igualmente recorrente é o uso de cerâmica cinzenta fina (29%) sendo residuais os fragmentos de cerâmica pintada (5%) e manual (1%). As peças obedecem na maioria a um formato sub-rectangular, registando-se igualmente o recorte romboidal e redondo. A maior parte dos indivíduos apresenta tamanho médio (6 a 7 cm por 4 a 5 cm), ocorrendo esporadicamente um formato menor (4 x 3 cm) e um formato mais comprido com c. de 9 cm. Outra diferença visível neste conjunto e que pode ter uma leitura, em termos da utilização, diz respeito ao tratamento das fracturas – 46% apresenta fracturas frescas com aresta viva, 32% fracturas mais ou menos boleadas e 22% completamente boleadas. O último parâmetro será o peso que oscila entre 13 e 102 gr predominando as peças com c. de 40 gr. Dentre os paralelos para este aponta-se o peso rectangular com cantos arredondados exumado em Abul A (horizonte IC) (Mayet e Silva, 2000).
2.2.7 - Pesos de pedra tipo «doughnut»
Na península Ibérica o uso de pesos de pedra parece mais limitado do que os de cerâmica. Dentro destes é raro o tipo esférico com perfuração central, por vezes designado de «doughnut» a que corresponde o tipo P 15 de Bernal (2010: 103). Na base da encosta norte na camada de destruição da muralha recolheu-se um fragmento de peso em anfibolito, muito polido que pesaria cerca de 230 gr. Não sendo segura a cronologia pré-romana da peça esta afigura-se como a mais provável, alistando mais esta categoria ao role tipológico presente na estação. Tal como referido, estes pesos são raros apontando-se o exemplo do museu de Ceuta (ibid.).
2.2.8 - Pesos de pedra com entalhes
Este tipo de objectos inscreve-se num sistema tradicional, remontando a momentos muito anteriores à Idade do Ferro e perdurando muito para além dela (Bernal, 2008: 188). Em Santa Olaia identificou-se uma única peça com entalhes talhados lateralmente num seixo de quartzito.
2.3 - Agulhas
Não sendo propriamente uma alfaia de pesca, as agulhas fazem parte do acervo ligado à produção e reparação de artes de pesca, surgindo em sítios costeiros em ambientes associados àquela. A designação abarca objectos de forma alongada com ponta aguçada utilizados em distintos âmbitos, tais como a produção de tecidos, a costura, actividades cirúrgicas e a pesca. Se para os modelos mais pequenos (com um orifício) é impossível determinar se se relacionam com os têxteis ou com a pesca, já o tipo de cabeça plana e dois orifícios encontra-se a esta vinculado, ligado a funções como reparar redes, coser sacos ou peças de couro (Garcia, 1981: 231). Nesta tipologia encaixam-se dois artefactos de bronze, recolhidos nas escavações de finais de oito centos. O maior e mais completo (com 14 cm) possui vareta de secção romboidal e cabeça rectangular com centro rebaixado equivalendo ao tipo 1.2 de Garcia Alonso (1981: 327). O segundo, recolhido num pavimento da Idade do Ferro (Rocha, 1905: 127) e fracturado na extremidade distal e na cabeça, possui secção da haste quadrangular e cabeça de secção rectangular, equivalendo ao tipo 2.1 de Garcia Alonso (Ibid). Uma terceira de secção circular e recolhida no exterior da muralha poderá possivelmente corresponder ao tipo 3.1 do mesmo autor (Ibid.). Para além destas agulhas específicas, assinalam-se três de tipo simples e de carácter polifuncional, que poderiam figurar com igual propriedade numa publicação dedicada aos têxteis. Estas peças de menor dimensão e haste de secção circular seriam mono-perfuradas. Uma pertence à colecção reunida por Santos Rocha e as outras duas foram exumadas na vertente da encosta norte em níveis com perturbação superficial. É interessante notar que das peças elencadas, duas se encontravam no exterior do perímetro da muralha, numa área com uma considerável concentração de pesos de entalhes, o que poderá indicar uma utilização relacionada com a reparação de redes e outros apetrechos de pesca. Curiosamente todas estas agulhas estavam inutilizadas (partidas na zona do orifício), o que poderia ter motivado o seu descarte. Embora sofram pouca alteração ao longo do tempo, as agulhas documentam-se em contextos peninsulares muito antes da presença romana. O modelo de dois orifícios regista-se na região gaditana em contextos de produção de preparados piscícolas de época púnica (Las Redes), no santuário fenício--púnico La Algaida (Saez, 2020, Vargas, 2020: vol. 2, 782-785, 809, 810, 874) ou no Levante espanhol (Garcia, 1981: 325, 326). O modelo simples encontra-se igualmente presente nos mesmos contextos (Garcia, 1981: 325, 326; Saez, 2020; Vargas, 2020: vol. 2, nº 752-756, 768-771). Em Portugal sinaliza-se o conjunto da necrópole do Olival do Senhor dos Mártires (Gomes 2021: 330 Est. CXXX). E, recuando ainda mais no tempo, e sem sair da região de Santa Olaia, salientamos que recentemente foi valorizada a agulha em matéria óssea do dólmen do Facho exposta no Museu Municipal Santos Rocha como provável instrumento de reparação de redes (Vilaça, no prelo)
3 - NOTA FINAL
A reconstituição biográfica dos instrumenta piscatoria de Santa Olaia esbarra com diversos obstáculos. Alguns são transversais à maioria das estações e prendem-se com omissão no registo arqueológico de parte dos componentes dos aparelhos de pesca por via da sua natureza perecível. A presença de um anzol implica uma linha, um peso pressupõe uma rede e uma agulha um fio, mas raros são os casos em que se conservam vestígios deste material que pressupõe ele mesmo uma cadeia e técnicas de produção específicas. Estes artefactos remetem não só para outra utensilagem, mas igualmente processos de produção e técnicas de uso. A este respeito dão as fontes clássicas (Rodríguez, 2006) e os registos iconográficos próximo-orientais (particularmente cananeus) e clássicos, eloquentes indicações acerca dos materiais, modelos e técnicas haliêuticas empregues. Sabemos por Opiano (III 80-84) do uso na antiguidade de vários tipos de rede, como a tarrafa, de cerco, de arrasto, de emalhe e das armadilhas (tal como na pesca tradicional). O mesmo (Opiano IV 640-646) menciona a prática de pesca diurna e nocturna com apoio de luzes, bem como a escolha dos iscos (Opiano III 175 sgs.) idênticos aos que ainda se utilizam. Quanto aos elementos necessários para a rede de pesca as referências aludem a “corda de esparto, linho branco e negro, cortiça, chumbo, madeira de pinho, correias, pedra, papiro, corno, barca de seis remos, torno com pega, tambor, ferro, madeira e pez” (Eliano XII, 43, tradução de Rodriguez, 2006). Para a pesca de anzol Eliano refere a utilização de crina de cavalo, cerdas de javali, terebintina, bronze, chumbo, cordas de esparto, penas, lãs, cortiça, madeiras, ferro, canas, juncos, cornos e pele de cabra e engodos com grãos de cevada (Ibid.). Não podemos, pois, deixar de considerar toda esta panóplia como possível pano de fundo às actividades desenroladas no I milénio no estuário do Mondego. Outro constrangimento à realização deste estudo, prende-se com o diferente grau de fiabilidade da informação disponível acerca da estação. Desde logo as recolhas antigas não oferecem pormenores acerca dos contextos deste lote. Acresce que a perturbação estratigráfica decorrente da diacronia ocupacional do sítio e os processos de destruição e erosão comprometem, de igual modo, parte das recolhas mais recentes. A inconsistência da informação disponível dificulta a compreensão global dos fenómenos deposicionais. Ainda assim, a análise dos dados permite apontar algumas ideias e elencar pistas para a interpretação dos fenómenos deposicionais. Em primeiro plano a distribuição dos itens evidencia a sua omnipresença no povoado, tanto no topo como na base da encosta, surgindo em contextos de variada natureza. A disseminação destes vestígios realça a importância da pesca, sendo que a sua posição pode sugerir diferentes leituras. Assim, a ocorrência deste espólio na zona baixa do povoado, uma área ligada a actividades produtivas e de armazenamento, próxima da linha de água coaduna-se com a existência de espaços vocacionados para preparação, manutenção e acondicionamento dos aparelhos e artes de pesca. A aglomeração de pesos nessa área e particularmente na proximidade da entrada no sítio é sugestiva e parece apontar nesse sentido. Parece haver inclusive uma concentração de lastros e de agulhas no exterior da muralha junto à entrada. O amplo areal que se estendia no sopé da encosta (Wahcsmann et al, 2009), prestava-se à montagem dos aparelhos e a proximidade da entrada encurtava o esforço de transporte dos mesmos. Já a ocorrência deste material na zona alta pode ter um significado distinto. O achado de instrumental pesqueiro noutro tipo de ambientes, nomeadamente em espaços votivos é um fenómeno corrente, sobretudo em santuários costeiros no Mediterrâneo, e com reflexo no território peninsular como nos casos de La Algaida e Cancho Roano (Vargas, 2020b). A deposição de anzóis, agulhas, pesos e âncoras como ex votos em edifícios religiosos será talvez a expressão mais comum, mas outros cenários se podem colocar como a recolha de utensílios na residência de sacerdotes e oficiais de culto. O escasso conhecimento dos processos deposicionais em Santa Olaia debilita a solidez das interpretações propostas, que devem ser encaradas com cautela. Assim a concentração de pesos num ambiente com aparente conotação ritual, como o que é admissível supor no planalto superior poderá apontar, pois, para a conversão destes objectos utilitários em peças com significado religioso por meio da sua eventual amortização. Outro aspecto que ressalta desta análise é a variedade morfotipológica dos artefactos. Como já vimos, diversas condicionantes inviabilizam uma seriação cronológica das categorias materiais identificadas. Sublinha-se, contudo, a incorporação de modelos tipológicos (e tecnológicos) vinculados a espaços fenícios e orientalizantes sobretudo a partir de época púnica. Desde logo os anzóis e agulhas. Contudo o tipo mais ilustrativo desta conexão cultural é testemunha do pelos pesos cilíndricos que marcam presença nas estações do baixo Mondego até meados do I milénio a.C. e inclusive a sua aparente disseminação para o vizinho estuário do Vouga. Sendo ainda sintomática a sua ausência no Crasto de Soure – sítio que marca um corte como o mundo de tradição orientalizante. A já referida multiplicidade tipológica parece indiciar igualmente a coexistência de diferentes práticas piscatórias sintomática de uma significativa especialização ou multiculturalismo desta actividade onde converge o emprego de um repertório variado, concebido tanto ex professo como com recurso ao oportunístico reaproveitamento de materiais. É sem surpresa pois que se constata a relevância da pesca na estação e a influência dos modelos e técnicas orientais no seu arsenal pesqueiro. Ficam, contudo, por sondar aspectos ligados à organização político-social destas comunidades. Sabemos que nalguns pontos do Mediterrâneo antigo, sobretudo em estados mais centralizados, existiam mecanismos de controle jurídico das pescas e do comércio de peixe (Blázquez, 2006). Para os territórios atlânticos desconhecem-se referências à existência de direitos sobre as pescas e mercados de peixe, o que não significa que, nestes locais, esta fosse uma actividade económica isenta de controle. Face ao que se conhece da organização das sociedades na antiguidade pré-clássica (Ibid.) seria de esperar que vigorasse algum sistema de tributação ou pelo menos de controle de meios de produção. Alguns dos materiais amortizados no planalto superior e a sua conexão a ambientes sacralizados poderiam apontar precisamente para o protagonismo de uma eventual classe sacerdotal, nesta regulação económica e social. Mesmo que não se verificasse um controle directo, como se supõe no caso de algumas actividades sob a esfera dos santuários em Cádis (Saez, 2013: 216), pode-se equacionar que este grupo exercesse uma forte pressão e influência normativa difícil de avaliar no rasto dos materiais arqueológicos (Garcia, 2001: 35). Este ascendente poderia assumir a forma de oferendas de bens, serviços ou até obedecer a uma requisição mais formal. Em todo o caso, ainda hoje sobressaem as expressões de culto das comunidades pesqueiras, particularmente sujeitas aos caprichos (sobre)naturais. Neste sentido e face ao que se conhece noutros contextos arqueológicos não será de estranhar que ocorressem semelhantes manifestações de culto e religiosidade no seio das comunidades de Santa Olaia.









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