Joaquim Simões Pleno | Regente e Compositor
A intensa e continuada atividade musical de Joaquim Simões Pleno enquanto regente de diversas bandas da região centro do país contribuiu para que o seu nome continue a afirmar-se como uma referéncra no meio filarmónico por- tuguês. Contudo, a ação desta figura não se esgotou na regência de bandas filarmónicas. Joaquim Pleno destacou-se também enquanto regente de tunas e outros agrupamentos musicais e enquanto instrumentista, compositor e arranjador.
O meu interesse pelo estudo da atividade musical de Joaquim Simões Pleno decorre de um trabalho de investigação de caráter etnomusicológico dedicado ao estudo das tunas em Portugal durante o século XX. No âmbito desta investigação tive oportunidade de desenvolver um estudo de caso em torno da Tuna Souselense, fundada na vila de Souselas no ano da Implantação da República. Durante o trabalho de campo, que incluiu a realização de entrevistas a elementos e ex-elementos deste grupo, pude recolher vários testemunhos relativamente à ação de Joaquim Pleno enquanto regente da Tuna Souselense. Porém, e dado que esta instituição não dispõe de documentação relativa às suas primeiras décadas de atividade, não foi possível determinar de forma inequívoca o período de tempo durante o qual Joaquim Pleno colaborou com este grupo. A única referência documental a Joaquim Pleno enquanto maestro da Tuna Souselense surge em 1939, no "Diário de Coimbra", e manifesta o reconhecimento da competência musical desta figura: Visitou-nos ontem a Tuna Souzelense que veio tomar parte nas festas do 6º aniversário do Grupo Recreativo Cruz de Cristo de Coselhas. A tuna, que é um grupo musical composto de 19 executantes, teve a amabilidade de executar junto da nossa redacção alguns números muito apreciáveis do seu magnífico programa. O seu regente, sr. Joaquim Maria Simões Pleno, é um maestro muito competente e de apreciáveis qualidades musicais (Diário de Coimbra, 03-07-1939).
A partir de 1939, a imprensa regional destaca a Orquestra-Jazz "Danúbio Azul", que emerge após uma cisão entre os músicos da Tuna Souselense. Esta orquestra, dirigida por Joaquim Pleno e composta por elementos da Tuna Souselense e da Filarmónica Pampilhosense, desenvolveu a sua atividade em hotéis, termas, clubes e casinos da região centro do país. A consulta de periódicos revelou ainda que esta orquestra participou em eventos de caráter filantrópico, promovendo a angariaçào de fundos a favor de famílias carenciadas, da caixa escolar das crianças de Souselas e inclusive da própna Tuna Souselense, como demonstra o testemunho de António Costa, músico que privou com Joaquim Pleno enquanto violinista da Tuna Souselense e batensta do "Danúbio Azul": A Tuna, como se via enfraquecida, porque faltaram alguns elementos nessa altura, criou-se aquela orquestra [Danúbio Azul], que era um senhor da Pampilhosa que era regente de música, que nessa altura era ensaiador da música de Arazede, Filarmónica de Arazede! E vivia na Pampilhosa. E ele entrou para a nossa... ensaiava, nessa altura, e então organizou-se aquela orquestra, "Danúbio Azul", que abríamos os bailes com a valsa "Danúbio Azul". Fomos algumas vezes ao Mário Duarte, a Aveiro, fomos a Gouveia, fomos a muitos lados! A gente não ganhava nada, era só para dar vida à Tuna, sabe? E alguma coisa que vinha era para auxiliar a Tuna! Não era para nossos rendimentos! (entrevista a António Costa 2011).
A pesquisa desenvolvida nos espólios da Tuna Souselense e da Orquestra-Jazz Danúbio Azul foi ampliada a outras instituições musicais dispersas por toda a região centro do país, e revelou uma ampla difusão das obras compostas por Joaquim Pleno. Os dados recolhidos permitem-me sustentar que a ampla disseminação da obra de Joaquim Pleno resultou não apenas do seu dinamismo enquanto instrumentista e regente, mas também do papel desempenhado enquanto compositor e arranjador associado à Casa Olímpio Medina, um estabelecimento fundado em Coimbra em 1936 e especializado na venda de instrumentos musicais e na produção de partituras manuscritas e impressas, A produção de partituras manuscritas, ajustadas ao perfil dos clientes da loia (sobretudo bandas, tunas e orquestras), era mediada por Joaquim Simões Pleno, que esteve associado à Casa Olímpio Medina durante as décadas de 1930 a 1960. Para além de compor música original, esta figura adaptava obras de outros autores às especificidades dos grupos musicais que as solicitavam. Após a instrumentação das obras, um grupo de 10 músicos militares do Regimento de Infantaria 23 de Coimbra copiava as partituras e as respetivas partes que, de acordo com Olímpio Santos Vitor (atual proprietário deste estabelecimento e afilhado do seu fundador) eram depois distribuídas através do serviço de correios (entrevista Olímpio Vítor 2012).
A inventariação do espólio de partituras da Casa Olímpio Medina revelou que este método de reprodução teve uma dinâmica mais acentuada durante as décadas que correspondem ao período durante o qual Joaquim Pleno colaborou com este estabelecimento. A reprodução de partituras manuscritas foi acompanhada pela edição de partituras impressas através do processo zinco- gráfico. Do conjunto destas edições destaca-se uma coleção de 105 partituras para violino ou bandolim, editada sob a marca "Edições Mickey", que incluíam apenas obras de compositores portugueses, sendo que Joaquim Pleno é um dos autores mais representados, a par com Manuel Eliseu, músico que desenvolveu a sua atividade sobretudo enquanto professor de música da FNAT e precedeu Pleno na regência da Tuna Souselense.
As obras de Joaquim Pleno que integram esta coleção incorporaram elementos de géneros coreográficos, procedentes do universo musical latino-americano (como a rumba, o tango, o samba ou o bolero) ou norte-americano (como o foxtrot, o one-step Ou o swing). Tal como sucedia relativamente às partituras manuscritas, as 'Edições Mickey' dispunham de um catálogo próprio, distribuido regularmente através do serviço de correios.
A disseminação dos catálogos e partituras da Casa Olímpio Medina concorreu para a promoção de Joaquim Simões Pleno enquanto figura particularmente vocacionada para a composição para bandas, tunas e orquestras. Ao conciliar as funções de compositor e arranjador ao serviço deste estabelecimento com uma intensa atividade enquanto regente e instrumentista, Joaquim Pleno exerceu um papel modelar junto de agrupamentos constituídos por músicos não-profissionais disseminados por todo o pais e, inclusive, em comunidades portuguesas no estrangeiro.
Autor: Rui Marques (Universidade de Aveiro — Departamento de Comunicação e Arte)
Título: Joaquim Simões Pleno | Revista Figuras da Música da Bairrada, nº 3
Edição: Câmara Municipal de Oliveira do Bairro / Museu de Etnomúsica da Bairrada
Data: Maio de 2015


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