O Livro dos Fiados
- Jorge Monteiro
- 9 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 12 de dez. de 2025
O Livro dos Fiados: Memórias das Mercearias de Santana
Nas antigas mercearias de aldeia, muito antes de existirem tecnologias de pagamento ou sistemas eletrónicos de faturação, o comércio funcionava com base na confiança e na precisão dos registos feitos à mão. Na aldeia de Santana essa prática tomava forma através do tradicional livro dos fiados, um método que permitia às famílias adquirir bens essenciais mesmo quando o dinheiro não chegava para tudo.
A mercearia mantinha um livro geral, volumoso e cuidadosamente organizado, onde o proprietário anotava produto a produto, com o respetivo preço e quantidade. Cada compra era registada ao detalhe: desde o quilo de açúcar ou de arroz ao papel higiénico, desde o bacalhau às velas ou ao sabão. A minúcia desses registos garantia que nada ficava por conferir.
Os clientes, por seu lado, possuíam um livro mais pequeno, muitas vezes já amarelado pelo uso diário. Mas, ao contrário do livro geral, ali não se apontava cada produto individualmente. O cliente anotava apenas o total diário da despesa, correspondente ao somatório das compras feitas nesse dia na mercearia. Este sistema permitia um controlo simples, mas eficaz, evitando discrepâncias e facilitando a conferência mensal.
No final de cada mês, chegava o momento do acerto de contas. O cliente entregava o seu livrinho ao merceeiro, que o comparava com o livro geral. Linha a linha, somava-se e conferia-se tudo: os totais diários registados pelo cliente tinham de coincidir com os valores resultantes das compras apontadas no livro do estabelecimento. Depois desta verificação minuciosa, apurava-se o valor final a pagar.
Quando o orçamento familiar permitia, o cliente liquidava toda a dívida; quando não era possível, fazia apenas uma amortização parcial, ficando o restante valor para o mês seguinte. Era um sistema simples, mas baseado numa confiança sólida entre vizinhos - uma confiança que era, aliás, o verdadeiro motor da vida comunitária em Santana.
Hoje, esta prática quase desapareceu, substituída por meios de pagamento eletrónicos e sistemas automáticos. Mas o livro dos fiados permanece na memória coletiva como um testemunho de um tempo em que a palavra tinha tanto peso como a escrita, e em que o comércio local era também um espaço de solidariedade, apoio e proximidade humana.
[Texto: Jorge Monteiro - 12 / 2025]
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Exatamente Lembro me disso Nas Alhadas de Baixo a nossa mercearia era do Sr Valentim e todos os meses o meu Pai ia lá pagar depois de confirmar várias vezes as contas Cumprimentos