Quando os fenícios chegaram ao Mondego
"A partir do século VIII a.C., o actual território português entrou numa época de profundas transformações. Surgiram novas tecnologias, intensificaram-se as trocas comerciais e aumentaram os contactos entre povos que habitavam as margens do Mediterrâneo e do Atlântico. Neste tempo floresciam os reinos do Próximo Oriente, a Babilónia atingia o seu apogeu e os poemas homéricos moldavam o imaginário grego.
É também nesta época que o Baixo Mondego ganha um papel inesperadamente importante.
Há cerca de 2800 anos começaram a chegar ao estuário do Mondego estrangeiros (marinheiros, comerciantes e artesãos) oriundos do sul da Península Ibérica, descendentes de gentes do Mediterrâneo oriental: os fenícios. Procuravam novos mercados para explorar e matérias-primas, sobretudo prata e estanho (indispensável para fabricar bronze). Estes traziam consigo muito mais do que mercadorias: introduziram novas técnicas, novas formas de construir, novos hábitos de consumo, crenças e costumes.
A chegada destes navegadores fazia parte de um fenómeno muito mais vasto. Os fenícios haviam criado uma extensa rede comercial que ligava o Mediterrâneo ao Atlântico. O estuário do Mondego, pela sua posição privilegiada, oferecia um excelente ponto de ligação entre a costa marítima e o interior beirão (rico em recursos minerais) e entre o mundo familiar do sul e o mundo misterioso do norte.
A Arqueologia revela que estas gentes acabaram por se instalar em Santa Olaia (Figueira da Foz), localizada numa antiga ilha fluvial, no amplo estuário que então existia e onde se estendia um braço de mar até Coimbra. A partir daqui controlavam a circulação de mercadorias transportadas pelo rio e pelo mar, transformando o povoado numa verdadeira porta de comunicação entre o Atlântico e o interior da região.
Mas Santa Olaia não existia sozinha. Fazia parte de uma rede organizada de povoamento, distribuída pelo Baixo Mondego, onde cada núcleo desempenhava funções específicas.
Existiam grandes centros regionais, como Conímbriga (Condeixa) e Aeminium (Coimbra), povoados estrategicamente implantados, como o Monte da Pega (Condeixa), Castro de Trás do Figueiró (Ansião) e Crasto de Tavarede (Figueira da Foz) e pequenos casais agrícolas, responsáveis pela exploração dos férteis campos do Mondego.
Durante muito tempo imaginou-se que os fenícios simplesmente chegaram e fundaram uma colónia para escoar matéria-prima (minério). Hoje, porém, a arqueologia sugere uma realidade bastante mais complexa. A fundação colonial de Santa Olaia dificilmente teria sido possível sem o acordo e a colaboração das comunidades indígenas que controlavam este território.
Tudo indica que Conímbriga desempenhou um papel decisivo nesse processo. Em troca do acesso a produtos orientalizantes de luxo como marfins, cerâmicas finas, adornos metálicos ou outros bens exóticos, as elites locais garantiriam aos comerciantes estrangeiros protecção, acesso aos recursos e integração nas redes de circulação existentes. Não se tratou, portanto, de uma relação entre colonizadores activos e indígenas passivos, mas antes de uma sinergia (parceria de benefício mútuo), na qual as populações locais tiveram um papel determinante.
Neste contexto cada um destes sítios mantinha uma personalidade própria, complementavam-se porque eram diferentes. Quem chegasse a Santa Olaia perceberia imediatamente que estava perante um lugar distinto dos demais.
Enquanto muitas comunidades da região continuavam a construir casas de planta circular (cabanas) como seria provavelmente o caso de Conimbriga, aqui erguiam-se edifícios rectangulares, organizados segundo modelos importados do Próximo Oriente. As construções recorriam frequentemente à taipa (terra comprimida entre moldes de madeira) e aos adobes (tijolos secos ao sol).
O povoado obedecia a um verdadeiro plano urbano. As áreas destinadas à habitação, ao trabalho artesanal e às actividades religiosas encontravam-se claramente diferenciadas, revelando um nível de organização inovador à época nestas paragens.
Mas as mudanças não se limitaram à arquitectura. A introdução do torno de oleiro permitiu fabricar recipientes de forma muito mais rápida e uniforme. Produziam-se mais peças, em menos tempo, facilitando o abastecimento da população e o comércio à distância.
A mó giratória constituiu outra inovação decisiva. Permitindo moer maiores quantidades de cereal com menor esforço, libertava mão-de-obra para outras actividades, como a agricultura, a metalurgia ou o comércio.
Também os fornos cerâmicos evoluíram. Os novos fornos de dupla câmara permitiam controlar melhor a temperatura durante a cozedura, produzindo recipientes de maior qualidade e em maior quantidade. Este sistema revelou-se tão eficiente que, com escassos aperfeiçoamentos, permaneceu em utilização durante mais de dois mil anos.
Ao mesmo tempo, desenvolveram-se oficinas dedicadas à metalurgia do bronze e do ferro. O bronze, mais fácil de trabalhar, continuava a ser utilizado para fabricar objectos delicados, como as fíbulas que prendiam o vestuário. O ferro, mais resistente, destinava-se sobretudo às armas e às ferramentas agrícolas, contribuindo para aumentar a eficácia do trabalho e da produção.
Mais do que os objectos exóticos que hoje admiramos nas vitrines dos museus, foram estas inovações tecnológicas que revolucionaram para sempre a economia e a vida quotidiana das populações.
A influência destas comunidades orientalizantes não desapareceu quando diminuíram os contactos com as cidades fenícias do sul da Península Ibérica, em meados do primeiro milénio antes de Cristo. Muitos dos conhecimentos, técnicas e formas de organização introduzidos neste período continuaram a marcar o estuário do Mondego durante séculos.
Apesar dos importantes progressos da investigação arqueológica, permanecem ainda muitas perguntas sem resposta.
Sabemos que, noutras regiões onde se instalaram comunidades orientalizantes, foram introduzidas novas espécies vegetais e animais, como a galinha ou o burro. Terá acontecido o mesmo no Baixo Mondego durante a Idade do Ferro? Terão sido estas comunidades responsáveis pela expansão da vinha e da oliveira? Como seriam os campos do Mondego há 2800 anos? Para além da cevada, que cereais cultivavam? Que árvores cobriam a paisagem? Para além dos novos hábitos de consumo, que impacto teve a língua e a religião fenícias no seio das comunidades indígenas? Como se alterou a cosmovisão do mundo destas pessoas, com o contacto com os mitos e lendas orientais?
Cada novo trabalho de investigação – escavações, mas não só (Almeida 2025) – aproxima-nos um pouco mais dessas respostas. E recorda-nos que muito antes dos romanos chegarem a estas terras, o Baixo Mondego já era um lugar ligado ao mundo, onde pessoas, ideias, mercadorias e tecnologias circulavam no mundo conhecido de então – entre o Atlântico e o Mediterrâneo."
[Artigo de Sara Almeida]


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