Queimador de Santa Olaia
- 17 de mar.
- 3 min de leitura
Aqui se reproduz um trabalho de Sara Almeida | CEAACP/FCT/UCoimbra, publicado no Boletim do Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património, n.º 2 - verão de 2019
O sitio arqueológico de Santa Olaia inscreve-se na diáspora mercantil protagonizada pelas cidades fenícias no início da Idade do Ferro. Correspondendo ao estabelecimento conhecido mais a Norte, na fachada atlântica, o local assume-se como derradeira fronteira, na margem do mundo orientalizante irradiado do Mediterrâneo. Sediado no estuário do Mondego, este arqueossítio, ainda mal conhecido, revela um dos aspectos emblemáticos do modelo colonial fenício nestes territórios mais remotos – a fusão de elementos indígenas e exógenos num caldo cultural peculiar de cada local. A peça seleccionada – um queimador – materializa precisamente este espírito de inclusão (com quase 3 milénios de lastro) tão caro à retórica atual.
Do domínio mágico-religioso, os queimadores invocam ritos emanados do universo simbólico próximo-oriental.
Documentada originalmente no Levante (Ugarit, territórios cananitas, hebraicos e Egipto) a combustão de essências odoríferas e incenso institui-se como importante prática votiva. O mesmo fenómeno regista-se na tradição greco latino onde os sacrifícios por queima de substâncias aromáticas e processamento de alimentos são aqui expressão de culto corrente.
Arqueologicamente, estes artefactos documentam-se em contextos cerimoniais, vinculados à ritualização dos corpos e espaços (admitindo-se, contudo, o seu uso em situações mais prosaicas). Surgem em espaços de diversa natureza – recintos funerários, de adoração, de habitação (ligados à comensalidade) e locais sacralizados como, por exemplo, as embarcações. Assim, ainda que alguns locais se revistam de maior pendor simbólico como as necrópoles e santuários, as manifestações de religiosidade estender-se-iam a todas as áreas de actividade humana. Importa igualmente salientar a vertente multissensorial destas vivências. Os fumos e cheiros emanados dos queimadores contribuiriam para a ritualização de atmosferas e para a conversão simbólica de determinados ambientes em espaços litúrgicos. Isto é, a experiência sensorial reforçava o gesto ritual, criando um selo olfativo que, conotado com determinados eventos, espaços ou indivíduos, contribuiria para a fixação de memórias e perceções significativas em termos das representações socio-culturais.
É neste pano de fundo, de protocolos cerimoniais vinculados ao sistema de crenças orientais, que se enquadra o nosso queimador em cerâmica comum – um objecto litúrgico, desprovido de especial interesse estético, mas carregado de significado e simbolismo.
O vaso de corpo baixo (13 cm de diâmetro por 6 cm de altura). A base consiste em pé de formato troncocónico com moldura interna. Apresenta fabrico de qualidade mediana e superfícies deterioradas, sendo, contudo, notórios os sinais de combustão no interior.
De Santa Olaia conheciam-se os típicos e padronizados queimadores de dupla taça, em engobe vermelho – fabrico por excelência de peças de natureza sumptuosa ou qualidade superior. Já este recipiente revela uma morfologia desfasada dos protótipos orientais, fruto de um possível fenómeno espontâneo de simplificação formal. Efectivamente, a par do seu carácter funcional dois aspectos são dignos de realce. Por um lado, o seu fabrico em cerâmica comum – possível indício da generalização destas peças – e a sua singularidade formal – prorrogativa, quiçá, da liberdade criativa de uma produção de pequena escala, de cariz indígena.
A peça convoca assim o nosso interesse, remetendo para a apropriação autóctone de práticas rituais de raiz semita (juntamente com as crenças religiosas subjacentes), num processo de integração cultural que é per se um acto de criação. Ou seja, nela combina-se a adoção do gesto ritual com a reinterpretação ou personalização do modelo de suporte material. Pelo que, de forma metafórica poderíamos tomá-la por uma manifestação física de Identidade, gerada justamente por simbiose cultural.


Comentários