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Renda, Crochê, Tricô, Ponto Cruz...

  • 6 de fev.
  • 2 min de leitura

Houve um tempo em que o silêncio das casas era tecido pelo som das agulhas. As nossas avós, mães, tias - sentadas à porta, à janela ou junto à lareira - faziam do tempo fios que se entrelaçavam, e cada ponto era uma palavra silenciosa, um gesto lento que parecia desafiar o relógio. Crochê, tricô, bordados delicados; cada um nascia sem pressa, como se os dias tivessem outro ritmo, um compasso só delas.

Nos meios rurais dos anos 70 e 80, o trabalho da terra e da casa consumia os dias. Mas mesmo nesse labor constante, havia intervalos roubados à lida, momentos em que as mãos cansadas aprendiam a criar. Eram instantes de liberdade contida, de paciência e prazer, e muitas vezes uma revista repousava à mão - a Fada do Lar ou a Burda, por exemplo, com os seus esquemas, padrões e ideias para toalhas, colchas, camisolas ou enxovais. Não era apenas papel: era guia, inspiração, companhia silenciosa. Folheavam-se páginas gastas, riscadas de memórias, onde cada desenho de ponto ou padrão prometia horas de entrega e beleza.

Enquanto tricotavam ou bordavam, conversavam, riam ou simplesmente pensavam. E assim nasciam colchas pesadas, toalhas rendadas, camisolas quentes, enxovais preparados com antecedência e carinho. Nada era feito para impressionar: era feito para durar, para aquecer, para cuidar. Cada ponto carregava utilidade, mas também identidade, pertença e amor. Cada fio era um fio de memória.

Hoje, quando tocamos nessas peças, tocamos também nelas. Tocamos o tempo que ofereceram, a paciência que cultivaram, o amor silencioso que se entranhou em cada ponto. Tocamos a tradição que resistiu ao tempo, como elas próprias resistiram. As revistas que folhearam falam ainda, em silêncio, de uma época em que o saber se transmitia de olhar para olhar, de mão para mão, sem tutoriais digitais ou livros; apenas pela prática, pela repetição e pela atenção.

Evocar esses gestos é perceber que o passado não é um lugar de nostalgia, mas de continuidade. É transformar memória em presença, tradição em futuro. É lembrar que, mesmo hoje, podemos ainda viver com as mãos, com calma, com sentido; podemos criar não apenas para consumir, mas para cuidar. Cada ponto que tocamos é uma ponte: entre nós e elas, entre ontem e agora, entre o fio delicado e o tempo vivido com intenção.



[Texto: Jorge Monteiro - 02 / 2026]



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